Ensine as Crianças a Aproveitarem

Como Ensinar Crianças a Aproveitarem o Tédio Sem Procurar uma Tela

“Pai, estou entediado.”

Poucos segundos depois:

“Posso pegar o celular?”

Ou:

“Posso jogar videogame?”

Essa cena provavelmente acontece em muitas casas.

A criança termina uma atividade, não sabe imediatamente o que fazer e procura a solução mais rápida: uma tela.

E é fácil entender por quê.

Celulares, tablets, videogames e televisão oferecem entretenimento instantâneo. Basta tocar, escolher e começar.

O tédio praticamente desaparece.

Mas existe uma pergunta interessante para os pais:

Será que todo tédio precisa desaparecer?

Talvez não.

Na verdade, um pouco de tédio pode abrir espaço para algo que dificilmente aparece quando cada minuto livre já vem acompanhado de entretenimento pronto:

imaginação,

curiosidade,

iniciativa,

brincadeira espontânea,

criatividade

e até descanso.

Isso não significa transformar o tédio em castigo.

Também não significa proibir tecnologia.

O objetivo é muito mais simples:

ensinar a criança que não saber o que fazer por alguns minutos não é um problema que precisa ser imediatamente resolvido por uma tela.

Vamos entender como fazer isso na prática.


Primeiro: o tédio não é uma emergência

A criança diz:

“Não tenho nada para fazer!”

Nossa primeira reação pode ser tentar resolver.

“Vai desenhar.”

“Pega um brinquedo.”

“Vamos fazer alguma coisa.”

“Quer assistir a um filme?”

“Pega o tablet.”

Mas talvez exista outra resposta possível:

“Tudo bem ficar um pouco entediado.”

Parece uma resposta pequena, mas transmite algo importante.

A criança não precisa receber uma solução imediatamente.

Ela pode experimentar aquele pequeno vazio e descobrir o que fazer com ele.

Talvez reclame.

Talvez ande pela casa.

Talvez fique alguns minutos sem fazer absolutamente nada.

E então:

“Posso pegar aquela caixa?”

“Cadê meus lápis?”

“Vamos jogar bola?”

“Posso fazer uma cabana?”

Alguma coisa começou.


Por que a tela se torna a resposta automática?

Imagine duas opções.

Na primeira, a criança precisa:

pensar,

procurar alguma coisa,

inventar uma brincadeira,

pegar materiais,

talvez chamar alguém.

Na segunda:

ela toca numa tela.

Imediatamente aparecem imagens, sons, jogos e vídeos.

Naturalmente, a segunda opção exige menos esforço para começar.

Por isso, se desejamos que nossos filhos aprendam a lidar melhor com momentos sem entretenimento, talvez seja necessário criar oportunidades para isso acontecer.

Não através de discursos sobre os males da tecnologia.

Mas através da experiência.


1. Pare de solucionar o tédio imediatamente

Experimente não responder a todo:

“Estou entediado”

com uma atividade pronta.

Você pode dizer:

“Eu entendo. Pense um pouco no que gostaria de fazer.”

Ou:

“Tudo bem. Você não precisa estar fazendo alguma coisa o tempo inteiro.”

Dependendo da idade:

“Veja se consegue inventar alguma coisa para fazer.”

Estamos devolvendo uma pequena responsabilidade à criança:

descobrir como ocupar parte do próprio tempo.


2. Não entregue uma tela nos primeiros minutos de silêncio

Esse hábito pode começar muito cedo.

Restaurante?

Tela.

Consultório?

Tela.

Viagem de carro?

Tela.

Fila?

Tela.

Cinco minutos esperando o irmão terminar alguma coisa?

Tela.

Naturalmente, existem momentos em que usar um aparelho é perfeitamente razoável.

O problema aparece quando isso se torna automático.

Experimente preservar algumas pequenas esperas.

No carro, a criança pode olhar pela janela.

Na fila, pode observar o ambiente.

No restaurante, vocês podem conversar.

No consultório, ela pode levar um livro ou simplesmente esperar.

Nem todo intervalo precisa ser preenchido.


3. Crie um “menu do tédio”

Agora vem uma ferramenta extremamente simples.

Pegue uma folha de papel e escreva:

ESTOU ENTEDIADO. O QUE POSSO FAZER?

Peça às próprias crianças que ajudem a montar a lista.

Ela pode incluir:

  • Desenhar;
  • Ler;
  • Jogar bola;
  • Montar blocos;
  • Fazer um quebra-cabeça;
  • Brincar no quintal;
  • Escrever uma história;
  • Fazer dobraduras;
  • Jogar cartas;
  • Montar uma cabana;
  • Organizar uma coleção;
  • Criar alguma coisa com papelão;
  • Ouvir música;
  • Brincar com um irmão;
  • Ajudar na cozinha;
  • Cuidar de plantas;
  • Inventar um jogo;
  • Fazer uma caminhada;
  • Criar uma história em quadrinhos;
  • Construir alguma coisa.

Coloque essa lista onde todos possam vê-la.

Na próxima vez que surgir:

“Não tenho nada para fazer!”

você não precisa inventar vinte soluções.

Pode simplesmente responder:

“Dê uma olhada no menu.”


4. Deixe materiais offline acessíveis

Existe pouca vantagem em dizer:

“Vá fazer alguma coisa sem tela”

se todas as alternativas estão guardadas, esquecidas ou difíceis de acessar.

Observe sua casa.

Onde estão os livros?

E os lápis?

Jogos?

Papel?

Quebra-cabeças?

Blocos?

Bola?

Massinha?

Materiais de construção?

Talvez possamos facilitar o encontro das crianças com essas opções.

Uma pequena cesta com papel e lápis perto da mesa.

Livros próximos ao sofá.

Jogos em uma prateleira acessível.

Uma caixa com materiais simples para projetos.

O ambiente também influencia as escolhas.


5. Não transforme toda alternativa offline em “atividade educativa”

Esse ponto merece atenção.

A criança diz:

“Estou entediado.”

E imediatamente respondemos:

“Ótimo! Faça exercícios de matemática.”

Depois de algumas experiências assim, podemos involuntariamente ensinar:

tela = diversão

offline = obrigação

Naturalmente, estudar e cumprir responsabilidades faz parte da vida.

Mas o mundo offline também precisa conter:

brincadeira,

descanso,

aventura,

risada,

imaginação,

movimento,

bagunça

e liberdade.

Nem tudo precisa ensinar alguma coisa de maneira planejada.

Às vezes uma caixa de papelão pode simplesmente virar um castelo.

E está ótimo assim.


6. Permita brincadeiras que parecem não ter objetivo

Adultos geralmente gostam de resultados.

Montamos um quebra-cabeça para terminá-lo.

Plantamos para colher.

Construímos para produzir alguma coisa.

Crianças nem sempre funcionam assim.

Elas podem passar meia hora cavando um buraco.

Organizando pedras.

Construindo alguma coisa que será desmontada cinco minutos depois.

Inventando regras incompreensíveis para um jogo.

Criando uma “loja” que não vende absolutamente nada.

Não pergunte imediatamente:

“Mas qual é o objetivo disso?”

Talvez não exista.

A brincadeira não precisa apresentar relatório de produtividade.


7. Resista à tentação de dirigir toda brincadeira

Podemos retirar a tela e cometer outro exagero:

tornamo-nos o novo sistema de entretenimento.

“Agora vamos pintar!”

“Depois vamos jogar!”

“Depois vamos cozinhar!”

“Depois faremos artesanato!”

Tudo organizado pelo adulto.

Essas atividades são ótimas.

Mas deixe também períodos sem programação.

Diga:

“Agora vocês têm um tempo livre.”

A primeira resposta poderá ser:

“Para fazer o quê?”

“Você decide.”

Essa frase pode ser poderosa.


8. Comece com períodos pequenos

Se a criança está acostumada a recorrer às telas em qualquer momento livre, talvez começar com uma tarde inteira seja desnecessariamente difícil.

Experimente 20 ou 30 minutos.

Depois:

45 minutos.

Uma hora.

Uma manhã de sábado.

Não é uma competição para descobrir quanto tempo a criança consegue permanecer sem tecnologia.

Estamos desenvolvendo outra habilidade:

saber o que fazer quando não existe entretenimento pronto.


9. Espere resistência

Você anuncia:

“Agora teremos uma hora sem videogame e celular.”

Talvez nenhuma criança responda:

“Excelente decisão. Finalmente terei oportunidade de desenvolver minha criatividade.”

Provavelmente você ouvirá:

“Mas por quê?”

“Não tem nada para fazer!”

“Todo mundo pode usar!”

“Isso é chato!”

Não interprete imediatamente a reclamação como prova de que a experiência fracassou.

Mudanças de hábito podem produzir resistência.

Mantenha tranquilidade.

Explique a regra.

E permita que o tempo continue passando.

Algo pode acontecer depois dos primeiros minutos.


10. Não tenha medo do “não fazer nada”

Uma criança pode simplesmente sentar.

Deitar no sofá.

Olhar pela janela.

Ficar alguns minutos pensando.

Isso nos deixa desconfortáveis porque estamos acostumados à ideia de que cada minuto precisa ser produtivo.

Mas descanso também existe.

Silêncio existe.

Contemplação existe.

A criança não precisa estar sempre:

aprendendo,

assistindo,

jogando,

produzindo,

praticando

ou realizando alguma atividade planejada.

Às vezes ela pode simplesmente estar.


11. Crie uma caixa contra o “não tenho nada para fazer”

Além do menu, monte uma caixa com materiais simples.

Por exemplo:

  • Papéis;
  • Lápis;
  • Canetinhas;
  • Tesoura apropriada à idade;
  • Fita adesiva;
  • Barbante;
  • Adesivos;
  • Cartolina;
  • Caixinhas;
  • Massinha;
  • Blocos;
  • Revistas velhas para recortar;
  • Materiais reutilizáveis.

Não coloque instruções detalhadas.

A ideia é justamente deixar aberta a possibilidade de criação.

Quando surgir o tédio:

“Quer olhar a caixa?”

Talvez dali saia um robô.

Uma cidade.

Uma espada de papelão.

Uma loja.

Uma história.

Ou algo que nenhum adulto conseguiria prever.


12. Use um pote de ideias

Outra opção divertida é escrever atividades em pequenos pedaços de papel.

Coloque no pote:

DESENHAR ALGO ENGRAÇADO

MONTAR UMA CABANA

JOGAR CARTAS

CRIAR UMA HISTÓRIA

FAZER PIPOCA

JOGAR BOLA

FAZER UM QUEBRA-CABEÇA

COZINHAR ALGUMA COISA

LER

CAMINHAR

A criança pode sortear uma ideia.

Mas existe uma regra interessante:

ela não é obrigada a realizar aquela atividade.

O papel funciona apenas como inspiração.


13. Recupere o quintal e os espaços externos

Se houver um espaço seguro disponível, o lado de fora oferece algo que as telas dificilmente conseguem reproduzir.

Uma bola.

Giz.

Bicicleta.

Corda.

Água.

Terra.

Folhas.

Pedras.

Galhos.

Uma caixa.

Tudo isso pode virar brincadeira.

Não precisamos transformar cada ida ao quintal em atividade organizada.

Às vezes basta abrir a porta para possibilidades que estavam esquecidas.


14. Ensine brincadeiras que não precisam de equipamentos

Algumas crianças talvez precisem inicialmente de referências.

Ensine:

esconde-esconde,

pega-pega,

mímica,

adedonha,

jogos com palmas,

brincadeiras com palavras,

adivinhações,

histórias coletivas.

Depois deixe que modifiquem as regras.

Crianças são extraordinariamente capazes de transformar uma brincadeira simples em outra completamente diferente.


15. Inclua responsabilidades na vida offline

Nem todo tempo longe das telas precisa ser entretenimento.

Existe roupa para guardar.

Mesa para arrumar.

Plantas para regar.

Compras para organizar.

Comida para preparar.

Animais para cuidar.

Dependendo da idade, a criança pode participar.

Talvez ela diga:

“Mas isso não é divertido!”

E talvez realmente não seja.

Tudo bem.

Vida offline também é vida real.

Ensinar uma criança a participar da rotina doméstica é diferente de simplesmente mantê-la entretida.


16. Mostre que os adultos também sabem ficar sem telas

Talvez este seja um dos pontos mais desafiadores.

Imagine dizer:

“Filho, saia desse celular e vá procurar alguma coisa para fazer.”

Enquanto você continua rolando a própria tela.

A criança percebe.

Se queremos apresentar um mundo offline interessante, precisamos mostrar que também sabemos viver nele.

Leia.

Cozinhe.

Conserte alguma coisa.

Cuide do jardim.

Caminhe.

Converse.

Jogue.

Faça um hobby.

Ou simplesmente deixe seu próprio telefone longe durante algum tempo.

Não precisamos fingir que adultos não utilizam tecnologia.

Precisamos apenas mostrar que também sabemos desligá-la.


17. Cuidado para não usar telas sempre como recompensa

“Se fizer a tarefa, ganha tablet.”

“Se guardar os brinquedos, pode jogar.”

“Se ficar quieto, ganha celular.”

Quando isso acontece o tempo inteiro, existe um efeito possível:

a tela se transforma no maior prêmio disponível.

Isso pode tornar as alternativas offline ainda menos atraentes.

Nem toda responsabilidade precisa terminar com uma recompensa digital.


18. Deixe os irmãos resolverem algumas brincadeiras

Quando irmãos começam uma atividade, talvez surjam conflitos.

“Ele pegou!”

“Ela não deixa!”

“Ele mudou a regra!”

É tentador administrar cada detalhe.

Naturalmente, adultos precisam intervir quando necessário.

Mas nem toda pequena discordância exige um juiz.

Parte da brincadeira entre crianças envolve:

negociar,

esperar,

ceder,

criar regras

e resolver diferenças.

Esse também é um aprendizado que pode aparecer quando a brincadeira não vem completamente programada.


19. Preserve algumas viagens de carro sem entretenimento

Nem toda viagem precisa começar com:

“Pegue o tablet.”

Em deslocamentos curtos, experimente deixar os aparelhos guardados.

Olhem pela janela.

Contem carros de determinada cor.

Procurem placas.

Inventem histórias.

Façam perguntas.

Conversem.

Ou fiquem quietos.

Talvez alguém pergunte:

“Falta quanto?”

pela décima vez.

Sobreviveremos.


20. Crie uma hora de “vida livre”

Escolha um período previsível.

Por exemplo:

SÁBADO — 10H ÀS 11H

Sem entretenimento digital.

Mas também sem atividade obrigatória planejada pelos pais.

As crianças podem decidir o que fazer dentro das regras normais da casa.

No início:

“E agora?”

Depois:

“Posso desenhar?”

“Vamos lá fora?”

“Cadê o UNO?”

“Posso usar aquela caixa?”

É justamente essa transição que queremos permitir.


O que fazer quando a criança insiste?

Imagine:

“Estou entediado.”

“Tudo bem.”

“Posso pegar o celular?”

“Agora não.”

“Então o que eu faço?”

“Você pode pensar em alguma coisa.”

“Não existe nada!”

“Dê uma olhada no seu menu de ideias.”

“Não quero fazer nada daquilo.”

“Tudo bem. Você pode ficar sem fazer nada por enquanto.”

E então pare de negociar.

Isso é importante.

Não precisamos apresentar outra alternativa a cada “não”.

A responsabilidade de encontrar alguma coisa para fazer pode, gradualmente, voltar para a criança.


Um desafio simples: 30 minutos de tédio permitido

Experimente em um dia tranquilo.

Explique:

“Durante os próximos 30 minutos não teremos entretenimento em telas. Você não precisa fazer nenhuma atividade específica. Pode escolher o que gostaria de fazer.”

Deixe algumas alternativas disponíveis.

Mas não escolha pela criança.

Então observe.

Nos primeiros 5 minutos

Talvez reclame.

Depois de 10 minutos

Pode começar a procurar alguma coisa.

Depois de 15 minutos

Talvez encontre um brinquedo esquecido.

Depois de 20 minutos

Pode surgir uma brincadeira.

Ou talvez não aconteça nada.

E isso também está bem.

Não estamos realizando um experimento para provar que toda criança se tornará criativa exatamente aos 17 minutos.

Estamos apenas permitindo que ela experimente um período em que uma tela não resolve imediatamente o vazio.


O objetivo não é criar crianças que odeiam tecnologia

Celulares, videogames, televisão e internet fazem parte do mundo em que nossos filhos estão crescendo.

Eles assistirão a filmes.

Jogarão.

Usarão aplicativos.

Estudarão através de dispositivos.

Conversarão com outras pessoas pela internet.

Portanto, o objetivo não precisa ser:

“Meu filho nunca procura uma tela.”

Um objetivo mais realista seria:

“Meu filho sabe que uma tela não é a única resposta para todo momento livre.”

Essa diferença é enorme.


Quando o tédio começa a produzir alguma coisa

Talvez você perceba mudanças pequenas.

Uma criança começa a desenhar novamente.

Outra pega uma bola.

Irmãos inventam uma brincadeira estranha.

Alguém encontra um livro esquecido.

Uma caixa vira uma nave espacial.

Surge uma conversa no banco traseiro.

Uma criança simplesmente fica olhando a chuva pela janela.

Nada disso precisou chegar através de uma notificação.

Essas possibilidades já estavam disponíveis.

Só precisavam de espaço.


Não precisamos eliminar o tédio. Precisamos devolver seu lugar.

Nossa primeira reação diante do tédio infantil costuma ser:

“Precisamos encontrar alguma coisa para a criança fazer.”

Talvez possamos experimentar outra pergunta:

“Será que ela consegue descobrir?”

No começo, provavelmente precisará de ajuda.

Precisará conhecer alternativas.

Ter materiais disponíveis.

Aprender algumas brincadeiras.

Ter exemplos dos adultos.

E também precisar ouvir, algumas vezes:

“Não, agora não é hora da tela.”

Mas, gradualmente, algo importante pode acontecer.

A criança começa a perceber que o instante entre:

“Não tenho nada para fazer”

e

“Já sei!”

não precisa ser eliminado.

É justamente nesse pequeno espaço que uma ideia pode nascer.

Por isso, da próxima vez que você ouvir:

“Pai, estou entediado!”

não tenha tanta pressa.

Talvez responda simplesmente:

“Tudo bem. Vamos ver o que você vai inventar.”

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